
Um desses dias, meu caro amigo Juca questionou-me sobre a idéia de um mundo onde as pessoas pudesse ser o que quisessem ser, na hora já logo me surgiu a frase chavão: “Querer é Poder”. Ora sabemos que não é bem assim, mergulhados no mundo capitalista com base desigual e onde se mede a felicidade das pessoas por seus potenciais de consumo, o Querer é Poder esta em desuso.
Deixando o mundo real de lado, pois o questionamento era muito mais um exercício de criatividade para imaginar, e mergulhando nesse universo fictício do Querer é Poder, comecei a buscar em minha mente personagens cotidianos, esses que fazem parte mesmo de nossas vidas, familiares, amigos, colegas de trabalho, Josés e Marias conhecidos ou não, e reativar na memória o que havia ouvido sobre o que cada um deles queria realmente ser na vida. Não trata-se apenas de relacionar esse querer a profissão, a sonhos de viagens, amores eternos, uma vida livre de sofrimentos, a felicidade plena, não, estava buscando algo que transcendese a esses valores que, na verdade, são muito mais uma afirmação dos desejos criados pelo capitalismo em que vivemos do que o valor de ser o que se quer ser de verdade. As respostas foram unânimes e todas ligadas a esses valores. Ideomar, balconisa da padaria onde frequentemente aprecio um expresso, queria ser dono de seu próprio negócio, ser patrão, contar o dinheiro faturado, reformar assim a cozinha da patroa que a anos reclama do piso antigo e dos armários enferrujados, presentear com um vídeo game de útilma geração os meninos e comprar uma casa na praia, modesta, mas sua.
Elaine, manicure da vizinhança, queria ter dinheiro para fazer um tratamento de beleza que a fizésse perder seus excedentes quilos, complementar com plásticas, esculpir o corpo de seus sonhos e poder vestir as roupas de griffe que só as modelos podem usar. Romero, tintureiro que passa precisamente todas as segundas-feiras no mesmo pontual horário para retirar possíveis roupas para seus serviços, ele já tivéra uma boa clientéla antes das lavanderias do futuro com suas máquinas de última geração, ele queria conhecer sua terra Natal na Espanha, talvez ter um negocio lá e levar a família para uma nova vida na Europa.
O querer Ser dos exemplos de cada personagem são tão ligados a realidade do poder que o dinheiro pode proporcionar, enraizados em valores tangíveis de tal maneira que não me convenceram sobre a idéia do mundo que Juca pensára, onde as pessoas pudessem ser o que quisessem. Me veio o fato de que a maioria das pessoas, e em todos os tempos diria, não sabem exatamente o que querem ser de verdade, sabem em pensamentos, em sonhos, em vontades despertadas pelos programas e anúncios de TV, mas pouco sabem nas implicações de ser o que se deseja ser e se isso de fato as fará feliz, as pessoas estão aptas as sonhar e desejar, mas poucas a realizar. O mundo imaginado por Juca então não é feito de pessoas reais, nem poderia, é um palco para a imaginação onde Ideomar quer ser o barqueiro da gôndola sobre um rio de calda de ameixa, leva a passeio turistas de Xangrilá, onde Elaine é uma borboleta de 8 cores que vive em um bosque repleto de azaléias, logo ao lado Romero rege uma orquestra de vagalumes tenores. O surrealismo do querer ser nesse cenário soa muito mais atraente, é um mundo de OZ onde a imaginação das pessoas não deve se prender ao real, elas estão enfadadas do real pois nele o querer ser o que se quer não é possível com o que se tem, é a agrura de viver o que se pode, fazer o que?
O que realmente queremos ser? e se pudermos ser sem nada ter? E o que seremos quando formos enfim?
maio 28th, 2009 by humanorica | 1 Comment »